É uma verdade. Não consigo fazer tudo depressa. Desde acordar (demoro mais de meia hora para sair da cama), passando por preparar-me (seja de manhã à tarde ou à noite). Demoro sempre mais que o resto das pessoas. Há quem diga que isto é falta de vontade de fazer as coisas. Mas não é. Eu quero fazer as coisas. Sair com as pessoas, estar com elas. Até trabalhar! Mas tenho o meu tempo. Que, como quem diga, é só meu. É assim que sou. Gostem ou não.
E ai de quem reclame! Tenho horror a quem reclame comigo. Até porque não sou de reclamar com os outros (a menos que me provoquem - e sim, o meu ponto de ebulição é baixo).
Voltando ao assunto. Demoro a fazer as coisas. E criticam-me por isso. Bastante. Mas ignoro. Porque, se fosse a responder a todas as provocações chateava-me mais.
Isto acontece, na minha opinião, por eu ser uma pessoa calma, ponderada, que pensa em todos os prós e contras quando. Às tantas está aqui o meu problema. Penso muito. Penso demais sobre uma só coisa. Mas quando é isso que me distingue do resto dos animais, que querem que eu faça?
Aceitem-me.
Mostrar mensagens com a etiqueta micro-conto. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta micro-conto. Mostrar todas as mensagens
quinta-feira, março 19, 2009
quinta-feira, março 05, 2009
Vou a todas
Tenho 35 anos, sou solteiro. Bem, nem por isso. Namoro com uma rapariga. Aliás, não é bem assim. Ela pressiona-me muito. Mas não é dela que estou a falar. É de mim. Sou solteiro e muito bom rapaz. Gosto muito de gostar de mulheres. Faço tudo para lhes agradar. Claro que peço sempre alguma coisa. Normalmente sexo. Nada mais me preocupa. Excepto que atirem a minha roupa pela janela, como aconteceu com uma há bem pouco tempo. Mas eu gosto dela. É mesmo verdade. É tão verdade como eu comprar três ramos de flores (iguais, claro) e oferecer a cada uma das minhas amigas. Às vezes elas perguntam-me se tenho namorada, se interrompem alguma coisa a meio. Digo sempre que não. Até porque, com a minha namorada, não é uma história. Eu vejo mais como um conto. Aliás, vários contos, daqueles sem nexo nenhum, como aquele filme das lésbicas, o mul-não-sei-quê-Drive.
Seja como for, é só isto que ocupa a minha vida: ter amigas. Muitas amigas. Mas nunca mais que três ao mesmo tempo. A partir desse número é só dores de cabeça. Sou feliz assim, com as minhas amigas, que não se conhecem entre elas, e a minha namorada, que espero que fique mais de um mês fora da cidade onde vivo.
Apesar disto tudo. A verdade é que me sinto sozinho. E não é só de vez em quando.
(obrigado, Tiago, pela ajuda)
Seja como for, é só isto que ocupa a minha vida: ter amigas. Muitas amigas. Mas nunca mais que três ao mesmo tempo. A partir desse número é só dores de cabeça. Sou feliz assim, com as minhas amigas, que não se conhecem entre elas, e a minha namorada, que espero que fique mais de um mês fora da cidade onde vivo.
Apesar disto tudo. A verdade é que me sinto sozinho. E não é só de vez em quando.
(obrigado, Tiago, pela ajuda)
quarta-feira, março 04, 2009
Péssimo acordar
A definição que ela encontrava para si era essa. A de uma pessoa com péssimo acordar. Aliás, este era tão mau, mas tão mau, que só se conseguia falar com ela - desde dizer "vou tomar banho" a "não encontro as chaves" - mais de uma hora depois do despertador tocar. Mas, como ela costumava dizer, nem tudo eram espinhos. Conseguia adormecer com música, televisão ligada ou, até, em conversa com outra pessoa. Escusado será dizer que o marido não gostava muito disso. Nem os filhos.
O problema todo, segundo o marido, era o trabalho que ela tinha. Todos os dias da semana ela tinha de analisar o comportamento no trabalho de mais de 20 pessoas. E isso não era nada fácil. Sobretudo porque ela uma psicóloga humana, no sentido cristão da palavra. Ela sabia que por trás daqueles números havia pessoas, com famílias e filhos. Imaginava, até, que algumas dessa pessoas seriam como ela, com mau acordar.
O problema todo, segundo o marido, era o trabalho que ela tinha. Todos os dias da semana ela tinha de analisar o comportamento no trabalho de mais de 20 pessoas. E isso não era nada fácil. Sobretudo porque ela uma psicóloga humana, no sentido cristão da palavra. Ela sabia que por trás daqueles números havia pessoas, com famílias e filhos. Imaginava, até, que algumas dessa pessoas seriam como ela, com mau acordar.
quinta-feira, fevereiro 19, 2009
Quem me dera.
Era um dia de sol. Ela estava em casa, sentada, sem nada para fazer. Ligou a televisão. Eram tudo reposições, como parece acontecer em todos os dias de sol. Parece que os "senhores da TV" não têm imaginação para mais. Pegam nos programas passaram no dia anterior e voltam a carregar no Play...
Decidiu-se. Ia dar uma volta. Calçou as sapatilhas, vestiu as calças de ganga mais confortáveis do guarda-fatos. E saiu. Começou por dar uma volta ao quarteirão, vendo com "olhos de ver" o sítio onde vivia - isto porque, nos outros dias, limitava-se a sair de casa para o trabalho e vice-versa - e descobriu que havia um cafezinho agradável mesmo perto. Continuou a andar e deu com uma lavandaria. Que parecia simpática, sem grandes cartazes e coisas espapanantes, como acontece com as do Shopping. E os preços eram bem interessantes. Passou também pela florista, farmácia e, cereja em cima do bolo, uma pequena livraria, com um espaço para tomar café ao sol - mas que estava fechada por ser domingo.
Uma hora depois de sair de casa (e dever aquilo tudo) meteu-se no carro e foi até à praia. Estacionou, viu que estava muita gente. Voltou para casa. E foi ver reposições.
Decidiu-se. Ia dar uma volta. Calçou as sapatilhas, vestiu as calças de ganga mais confortáveis do guarda-fatos. E saiu. Começou por dar uma volta ao quarteirão, vendo com "olhos de ver" o sítio onde vivia - isto porque, nos outros dias, limitava-se a sair de casa para o trabalho e vice-versa - e descobriu que havia um cafezinho agradável mesmo perto. Continuou a andar e deu com uma lavandaria. Que parecia simpática, sem grandes cartazes e coisas espapanantes, como acontece com as do Shopping. E os preços eram bem interessantes. Passou também pela florista, farmácia e, cereja em cima do bolo, uma pequena livraria, com um espaço para tomar café ao sol - mas que estava fechada por ser domingo.
Uma hora depois de sair de casa (e dever aquilo tudo) meteu-se no carro e foi até à praia. Estacionou, viu que estava muita gente. Voltou para casa. E foi ver reposições.
quarta-feira, fevereiro 18, 2009
Andava de forma estranha.
Tinha nascido com uma perna mais curta que a outra. Efectivamente era assim, não havia volta a dar. Nem a "tal operação" de que o médico falou aos pais dele adiantou. A verdade, verdadinha, é que a perna não crescia. Não havia forma de crescer. Mesmo depois de ter passado quase um ano deitado, com uns ferros na perna. Um ano que lhe custou a perda do 5º ano. Um ano em que não conheceu nenhuma rapariga nova, não jogou futebol com os colegas (apesar de ficar sempre à balia e ser repetidamente o último a ser escolhido), não se sujou na rua nem andou de bicicleta. Desde aí, passaram-se 20 anos. Já tem quase trinta, um filho e uma mulher. Que gostam dele. O miúdo, com cerca de um ano, é, segundo ele, a melhor coisa que fez. Talvez porque não tem uma perna mais curta do que a outra. Talvez porque sabe que o miúdo não vai passar pela mesma privação de um ano com ferros na perna, numa tentativa de a dita crescer.
A mulher gosta dele. Ela é contabilista numa fábrica onde fazem componentes automóveis. Ela tem mais cinco anos que ele, tem 1,80m e chama-o de "o meu pequenino". Ele gosta. Acha carinhoso. Os dois estão juntos há 6 anos. Conheceram-se na grande viagem dele - uma ida a Paris, só com uma mochila. Foi no comboio e ela nem sequer notou o seu "pequeno defeito".
Hoje partilham um T2 em Ermesinde, com garagem privativa e aquecimento central. E só pensam em envelhecer juntos. No T2 de Ermesinde.
A mulher gosta dele. Ela é contabilista numa fábrica onde fazem componentes automóveis. Ela tem mais cinco anos que ele, tem 1,80m e chama-o de "o meu pequenino". Ele gosta. Acha carinhoso. Os dois estão juntos há 6 anos. Conheceram-se na grande viagem dele - uma ida a Paris, só com uma mochila. Foi no comboio e ela nem sequer notou o seu "pequeno defeito".
Hoje partilham um T2 em Ermesinde, com garagem privativa e aquecimento central. E só pensam em envelhecer juntos. No T2 de Ermesinde.
segunda-feira, fevereiro 16, 2009
Está giro.
Estas foram as palavras dela quando viu que o resultado era o que esperava. Agradava-lhe o "aspecto" daquilo. Tinha cores, linhas que resultavam em formas engraçadas. Para ela. Para ele era um sofrimento. Aquilo só "era giro". Não dizia mais nada. As palavras, escolhidas por ela, eram estúpidas, pouco sonantes e, pior que tudo, tinham erros. "Eu sei escrever", dizia ela, convicta que o acordo ortográfico (para ela escrevia-se "hortográfico") já tinha entrado em vigor. E ele baixou a cabeça e deixou que aquilo fosse assim.
Depois vieram os comentários das outras pessoas. Todas se viravam para ele e diziam "Isto está mal escrito! Como podes deixar passar?". Ele respondia, tentando acreditar no que dizia, "É o novo acordo ortográfico, vamos ser os primeiros a fazer algo assim. É um marco". Mas nem assim ele, que não tinha nada a ver com aquilo, escapava às críticas.
No dia seguinte, ele resolveu-se. Foi falar com ela. Levou os Decretos-Lei todos, mais uma série de referências - portuguesas e brasileiras - para lhe provar que o acordo ainda estava em desacordo. Ela leu, leu e disse "Hmmm. És CAPAZ de ter razão. Queres alterar para a forma correcta?". Ele disse que sim, que alterava, que até nem era coisa para "levar muito tempo". Alterou. Ficou péssimo. Perdia-se a ideia, as linhas, as cores e o arranjo perdiam-se. Tentou alterar estas, a ver se fazia sentido. Começou a fazer. Foi apresentar-lhe. Ela, do alto do seu pedestal, lá disse "Não é a melhor coisa do mundo, mas lá terá de ser.
Ele terminou, fechou tudo, enviou.
Depois disto, nada foi feito. O "giro" ficou na gaveta.
Depois vieram os comentários das outras pessoas. Todas se viravam para ele e diziam "Isto está mal escrito! Como podes deixar passar?". Ele respondia, tentando acreditar no que dizia, "É o novo acordo ortográfico, vamos ser os primeiros a fazer algo assim. É um marco". Mas nem assim ele, que não tinha nada a ver com aquilo, escapava às críticas.
No dia seguinte, ele resolveu-se. Foi falar com ela. Levou os Decretos-Lei todos, mais uma série de referências - portuguesas e brasileiras - para lhe provar que o acordo ainda estava em desacordo. Ela leu, leu e disse "Hmmm. És CAPAZ de ter razão. Queres alterar para a forma correcta?". Ele disse que sim, que alterava, que até nem era coisa para "levar muito tempo". Alterou. Ficou péssimo. Perdia-se a ideia, as linhas, as cores e o arranjo perdiam-se. Tentou alterar estas, a ver se fazia sentido. Começou a fazer. Foi apresentar-lhe. Ela, do alto do seu pedestal, lá disse "Não é a melhor coisa do mundo, mas lá terá de ser.
Ele terminou, fechou tudo, enviou.
Depois disto, nada foi feito. O "giro" ficou na gaveta.
sexta-feira, fevereiro 13, 2009
Estava de passagem.
Tinha nascido há 20 anos. Fez a escola primária, o ciclo, o liceu e estava na Universidade.
Insatisfeito.
Dizia que estava de passagem. Sempre eram 3 anos, é certo. Mas ele insistia. Estava de passagem.
Talvez porque nunca se sentia satisfeito com nada. Não estava satisfeito com a família, porque insistiam em não lhe dar a mesma atenção que era dada aos cães que andavam lá em casa.
Não estava satisfeito com a namorada. Ela insistia em não lhe telefonar, ou melhor, insistia em ignorá-lo, com o pretexto de que ele a "atrofiava" por ele lhe dar tanta atenção.
Não estava satisfeito com as aulas. Era tudo demasiado teórico, muitos livros para ler, sobretudo porque eram livros com muitos anos, sobre temas que não lhe interessavam no dia-a-dia.
E estava de passagem.
Um dia aconteceu-lhe uma "coisa boa".
Deixou de dizer que estava de passagem. Deixou de dizer que estava insatisfeito. Tudo começou quando começou a escrever. Primeiro era sobre as andorinhas, depois era sobre as árvores. Mas não eram textos descritivos ou românticos ou científicos. Apenas falava sobre esses objectos. Fascinavam-no. A partir daí, tudo começou a mudar. Fascinou-se com o final do curso, o final do namoro e o final da vida em casa dos pais.
Meteu-se num barco. Era um cargueiro intercontinental. Deixou-se ir. Um, dois, três anos. Foi. E fascinou-se. Com o que via, com as pessoas com quem falava, com os peixes que comeu.
Depois voltou.
Insatisfeito.
Dizia que estava de passagem. Sempre eram 3 anos, é certo. Mas ele insistia. Estava de passagem.
Talvez porque nunca se sentia satisfeito com nada. Não estava satisfeito com a família, porque insistiam em não lhe dar a mesma atenção que era dada aos cães que andavam lá em casa.
Não estava satisfeito com a namorada. Ela insistia em não lhe telefonar, ou melhor, insistia em ignorá-lo, com o pretexto de que ele a "atrofiava" por ele lhe dar tanta atenção.
Não estava satisfeito com as aulas. Era tudo demasiado teórico, muitos livros para ler, sobretudo porque eram livros com muitos anos, sobre temas que não lhe interessavam no dia-a-dia.
E estava de passagem.
Um dia aconteceu-lhe uma "coisa boa".
Deixou de dizer que estava de passagem. Deixou de dizer que estava insatisfeito. Tudo começou quando começou a escrever. Primeiro era sobre as andorinhas, depois era sobre as árvores. Mas não eram textos descritivos ou românticos ou científicos. Apenas falava sobre esses objectos. Fascinavam-no. A partir daí, tudo começou a mudar. Fascinou-se com o final do curso, o final do namoro e o final da vida em casa dos pais.
Meteu-se num barco. Era um cargueiro intercontinental. Deixou-se ir. Um, dois, três anos. Foi. E fascinou-se. Com o que via, com as pessoas com quem falava, com os peixes que comeu.
Depois voltou.
Subscrever:
Comentários (Atom)