Tinha nascido com uma perna mais curta que a outra. Efectivamente era assim, não havia volta a dar. Nem a "tal operação" de que o médico falou aos pais dele adiantou. A verdade, verdadinha, é que a perna não crescia. Não havia forma de crescer. Mesmo depois de ter passado quase um ano deitado, com uns ferros na perna. Um ano que lhe custou a perda do 5º ano. Um ano em que não conheceu nenhuma rapariga nova, não jogou futebol com os colegas (apesar de ficar sempre à balia e ser repetidamente o último a ser escolhido), não se sujou na rua nem andou de bicicleta. Desde aí, passaram-se 20 anos. Já tem quase trinta, um filho e uma mulher. Que gostam dele. O miúdo, com cerca de um ano, é, segundo ele, a melhor coisa que fez. Talvez porque não tem uma perna mais curta do que a outra. Talvez porque sabe que o miúdo não vai passar pela mesma privação de um ano com ferros na perna, numa tentativa de a dita crescer.
A mulher gosta dele. Ela é contabilista numa fábrica onde fazem componentes automóveis. Ela tem mais cinco anos que ele, tem 1,80m e chama-o de "o meu pequenino". Ele gosta. Acha carinhoso. Os dois estão juntos há 6 anos. Conheceram-se na grande viagem dele - uma ida a Paris, só com uma mochila. Foi no comboio e ela nem sequer notou o seu "pequeno defeito".
Hoje partilham um T2 em Ermesinde, com garagem privativa e aquecimento central. E só pensam em envelhecer juntos. No T2 de Ermesinde.
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