Tinha nascido há 20 anos. Fez a escola primária, o ciclo, o liceu e estava na Universidade.
Insatisfeito.
Dizia que estava de passagem. Sempre eram 3 anos, é certo. Mas ele insistia. Estava de passagem.
Talvez porque nunca se sentia satisfeito com nada. Não estava satisfeito com a família, porque insistiam em não lhe dar a mesma atenção que era dada aos cães que andavam lá em casa.
Não estava satisfeito com a namorada. Ela insistia em não lhe telefonar, ou melhor, insistia em ignorá-lo, com o pretexto de que ele a "atrofiava" por ele lhe dar tanta atenção.
Não estava satisfeito com as aulas. Era tudo demasiado teórico, muitos livros para ler, sobretudo porque eram livros com muitos anos, sobre temas que não lhe interessavam no dia-a-dia.
E estava de passagem.
Um dia aconteceu-lhe uma "coisa boa".
Deixou de dizer que estava de passagem. Deixou de dizer que estava insatisfeito. Tudo começou quando começou a escrever. Primeiro era sobre as andorinhas, depois era sobre as árvores. Mas não eram textos descritivos ou românticos ou científicos. Apenas falava sobre esses objectos. Fascinavam-no. A partir daí, tudo começou a mudar. Fascinou-se com o final do curso, o final do namoro e o final da vida em casa dos pais.
Meteu-se num barco. Era um cargueiro intercontinental. Deixou-se ir. Um, dois, três anos. Foi. E fascinou-se. Com o que via, com as pessoas com quem falava, com os peixes que comeu.
Depois voltou.
Sem comentários:
Enviar um comentário