Era um dia de sol. Ela estava em casa, sentada, sem nada para fazer. Ligou a televisão. Eram tudo reposições, como parece acontecer em todos os dias de sol. Parece que os "senhores da TV" não têm imaginação para mais. Pegam nos programas passaram no dia anterior e voltam a carregar no Play...
Decidiu-se. Ia dar uma volta. Calçou as sapatilhas, vestiu as calças de ganga mais confortáveis do guarda-fatos. E saiu. Começou por dar uma volta ao quarteirão, vendo com "olhos de ver" o sítio onde vivia - isto porque, nos outros dias, limitava-se a sair de casa para o trabalho e vice-versa - e descobriu que havia um cafezinho agradável mesmo perto. Continuou a andar e deu com uma lavandaria. Que parecia simpática, sem grandes cartazes e coisas espapanantes, como acontece com as do Shopping. E os preços eram bem interessantes. Passou também pela florista, farmácia e, cereja em cima do bolo, uma pequena livraria, com um espaço para tomar café ao sol - mas que estava fechada por ser domingo.
Uma hora depois de sair de casa (e dever aquilo tudo) meteu-se no carro e foi até à praia. Estacionou, viu que estava muita gente. Voltou para casa. E foi ver reposições.
quinta-feira, fevereiro 19, 2009
quarta-feira, fevereiro 18, 2009
Disclaimer
Chamaram-me a atenção que os micro-contos que aqui tenho deixado podem ser vistos como autobiográficos.
É erro. Garanto-vos. Geralmente são pequenas frases que atiro para o computador entre dois trabalhos (ou 3). Geralmente têm a ver com pessoas que passam junto à minha secretária. É a partir delas que invento tudo. Ou imagino.
É erro. Garanto-vos. Geralmente são pequenas frases que atiro para o computador entre dois trabalhos (ou 3). Geralmente têm a ver com pessoas que passam junto à minha secretária. É a partir delas que invento tudo. Ou imagino.
Andava de forma estranha.
Tinha nascido com uma perna mais curta que a outra. Efectivamente era assim, não havia volta a dar. Nem a "tal operação" de que o médico falou aos pais dele adiantou. A verdade, verdadinha, é que a perna não crescia. Não havia forma de crescer. Mesmo depois de ter passado quase um ano deitado, com uns ferros na perna. Um ano que lhe custou a perda do 5º ano. Um ano em que não conheceu nenhuma rapariga nova, não jogou futebol com os colegas (apesar de ficar sempre à balia e ser repetidamente o último a ser escolhido), não se sujou na rua nem andou de bicicleta. Desde aí, passaram-se 20 anos. Já tem quase trinta, um filho e uma mulher. Que gostam dele. O miúdo, com cerca de um ano, é, segundo ele, a melhor coisa que fez. Talvez porque não tem uma perna mais curta do que a outra. Talvez porque sabe que o miúdo não vai passar pela mesma privação de um ano com ferros na perna, numa tentativa de a dita crescer.
A mulher gosta dele. Ela é contabilista numa fábrica onde fazem componentes automóveis. Ela tem mais cinco anos que ele, tem 1,80m e chama-o de "o meu pequenino". Ele gosta. Acha carinhoso. Os dois estão juntos há 6 anos. Conheceram-se na grande viagem dele - uma ida a Paris, só com uma mochila. Foi no comboio e ela nem sequer notou o seu "pequeno defeito".
Hoje partilham um T2 em Ermesinde, com garagem privativa e aquecimento central. E só pensam em envelhecer juntos. No T2 de Ermesinde.
A mulher gosta dele. Ela é contabilista numa fábrica onde fazem componentes automóveis. Ela tem mais cinco anos que ele, tem 1,80m e chama-o de "o meu pequenino". Ele gosta. Acha carinhoso. Os dois estão juntos há 6 anos. Conheceram-se na grande viagem dele - uma ida a Paris, só com uma mochila. Foi no comboio e ela nem sequer notou o seu "pequeno defeito".
Hoje partilham um T2 em Ermesinde, com garagem privativa e aquecimento central. E só pensam em envelhecer juntos. No T2 de Ermesinde.
segunda-feira, fevereiro 16, 2009
Está giro.
Estas foram as palavras dela quando viu que o resultado era o que esperava. Agradava-lhe o "aspecto" daquilo. Tinha cores, linhas que resultavam em formas engraçadas. Para ela. Para ele era um sofrimento. Aquilo só "era giro". Não dizia mais nada. As palavras, escolhidas por ela, eram estúpidas, pouco sonantes e, pior que tudo, tinham erros. "Eu sei escrever", dizia ela, convicta que o acordo ortográfico (para ela escrevia-se "hortográfico") já tinha entrado em vigor. E ele baixou a cabeça e deixou que aquilo fosse assim.
Depois vieram os comentários das outras pessoas. Todas se viravam para ele e diziam "Isto está mal escrito! Como podes deixar passar?". Ele respondia, tentando acreditar no que dizia, "É o novo acordo ortográfico, vamos ser os primeiros a fazer algo assim. É um marco". Mas nem assim ele, que não tinha nada a ver com aquilo, escapava às críticas.
No dia seguinte, ele resolveu-se. Foi falar com ela. Levou os Decretos-Lei todos, mais uma série de referências - portuguesas e brasileiras - para lhe provar que o acordo ainda estava em desacordo. Ela leu, leu e disse "Hmmm. És CAPAZ de ter razão. Queres alterar para a forma correcta?". Ele disse que sim, que alterava, que até nem era coisa para "levar muito tempo". Alterou. Ficou péssimo. Perdia-se a ideia, as linhas, as cores e o arranjo perdiam-se. Tentou alterar estas, a ver se fazia sentido. Começou a fazer. Foi apresentar-lhe. Ela, do alto do seu pedestal, lá disse "Não é a melhor coisa do mundo, mas lá terá de ser.
Ele terminou, fechou tudo, enviou.
Depois disto, nada foi feito. O "giro" ficou na gaveta.
Depois vieram os comentários das outras pessoas. Todas se viravam para ele e diziam "Isto está mal escrito! Como podes deixar passar?". Ele respondia, tentando acreditar no que dizia, "É o novo acordo ortográfico, vamos ser os primeiros a fazer algo assim. É um marco". Mas nem assim ele, que não tinha nada a ver com aquilo, escapava às críticas.
No dia seguinte, ele resolveu-se. Foi falar com ela. Levou os Decretos-Lei todos, mais uma série de referências - portuguesas e brasileiras - para lhe provar que o acordo ainda estava em desacordo. Ela leu, leu e disse "Hmmm. És CAPAZ de ter razão. Queres alterar para a forma correcta?". Ele disse que sim, que alterava, que até nem era coisa para "levar muito tempo". Alterou. Ficou péssimo. Perdia-se a ideia, as linhas, as cores e o arranjo perdiam-se. Tentou alterar estas, a ver se fazia sentido. Começou a fazer. Foi apresentar-lhe. Ela, do alto do seu pedestal, lá disse "Não é a melhor coisa do mundo, mas lá terá de ser.
Ele terminou, fechou tudo, enviou.
Depois disto, nada foi feito. O "giro" ficou na gaveta.
sexta-feira, fevereiro 13, 2009
Estava de passagem.
Tinha nascido há 20 anos. Fez a escola primária, o ciclo, o liceu e estava na Universidade.
Insatisfeito.
Dizia que estava de passagem. Sempre eram 3 anos, é certo. Mas ele insistia. Estava de passagem.
Talvez porque nunca se sentia satisfeito com nada. Não estava satisfeito com a família, porque insistiam em não lhe dar a mesma atenção que era dada aos cães que andavam lá em casa.
Não estava satisfeito com a namorada. Ela insistia em não lhe telefonar, ou melhor, insistia em ignorá-lo, com o pretexto de que ele a "atrofiava" por ele lhe dar tanta atenção.
Não estava satisfeito com as aulas. Era tudo demasiado teórico, muitos livros para ler, sobretudo porque eram livros com muitos anos, sobre temas que não lhe interessavam no dia-a-dia.
E estava de passagem.
Um dia aconteceu-lhe uma "coisa boa".
Deixou de dizer que estava de passagem. Deixou de dizer que estava insatisfeito. Tudo começou quando começou a escrever. Primeiro era sobre as andorinhas, depois era sobre as árvores. Mas não eram textos descritivos ou românticos ou científicos. Apenas falava sobre esses objectos. Fascinavam-no. A partir daí, tudo começou a mudar. Fascinou-se com o final do curso, o final do namoro e o final da vida em casa dos pais.
Meteu-se num barco. Era um cargueiro intercontinental. Deixou-se ir. Um, dois, três anos. Foi. E fascinou-se. Com o que via, com as pessoas com quem falava, com os peixes que comeu.
Depois voltou.
Insatisfeito.
Dizia que estava de passagem. Sempre eram 3 anos, é certo. Mas ele insistia. Estava de passagem.
Talvez porque nunca se sentia satisfeito com nada. Não estava satisfeito com a família, porque insistiam em não lhe dar a mesma atenção que era dada aos cães que andavam lá em casa.
Não estava satisfeito com a namorada. Ela insistia em não lhe telefonar, ou melhor, insistia em ignorá-lo, com o pretexto de que ele a "atrofiava" por ele lhe dar tanta atenção.
Não estava satisfeito com as aulas. Era tudo demasiado teórico, muitos livros para ler, sobretudo porque eram livros com muitos anos, sobre temas que não lhe interessavam no dia-a-dia.
E estava de passagem.
Um dia aconteceu-lhe uma "coisa boa".
Deixou de dizer que estava de passagem. Deixou de dizer que estava insatisfeito. Tudo começou quando começou a escrever. Primeiro era sobre as andorinhas, depois era sobre as árvores. Mas não eram textos descritivos ou românticos ou científicos. Apenas falava sobre esses objectos. Fascinavam-no. A partir daí, tudo começou a mudar. Fascinou-se com o final do curso, o final do namoro e o final da vida em casa dos pais.
Meteu-se num barco. Era um cargueiro intercontinental. Deixou-se ir. Um, dois, três anos. Foi. E fascinou-se. Com o que via, com as pessoas com quem falava, com os peixes que comeu.
Depois voltou.
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