quinta-feira, março 24, 2005

Retrato decimal

“Bem”, disse ela, “vais ali ao padeiro e trazes-me o que te pedi?”
“Pode ser”, respondi, não muito convencido da necessidade de ir buscar pão duro e pagar por ele. Mas fui. Obedeci. Três quilos de pão duro.
Lá vim eu com três sacos de papel, sem asas, pela rua. Sentia que todos olhavam para mim (porque já sabiam que era um movimento semanal habitual).
Mas lá cheguei a casa.
“Está aqui...” atirei eu para ela, pousando o raio dos sacos na mesa da cozinha. Ela estava na sala. Estava a “mandar uns mails para uns amigos”. Ignorei. Fui para o quarto, semi-deitei-me na cama e abri um livro. Uma, duas, três páginas depois parei. Estava farto. Os óculos estavam não sei onde e não me apetecia levantar da cama. Pousei o livro e a cabeça. E deixei-me dormir.
Meia hora mais tarde ela chama-me para jantar. Não tinha vontade de comer. Apenas de a mandar “dar uma volta”. Aborrecia-me aquele prato dela, sempre com cogumelos, sempre com rebentos de soja, sempre com bambu. E polpa de tomate.

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