sexta-feira, março 12, 2004

A Bíblia revista e aumentada


"Leio com frequência a Bíblia. Gosto muito de boa ficção. E ainda hoje fico indignado quando, durante a eucaristia pascal, os padres falam sobre a morte de Jesus. Se querem que mais gente leia o Livro Sagrado, não será certamente boa ideia porem-se a revelar o final.
Devo confessar, no entanto, que fiquei um pouco desiludido com o facto de, na Bíblia, se ter omitido o quotidiano, a cena da vida privada, a petite histoire. Fazem falta relatos de uma ida de Cristo ao barbeiro ("É só cortar a franja e aparar as pontas, sr. Zebedeu"), de Job a jogar no Totoloto ("Porra, a chave desta semana é outra vez composta exactamente pelos números com que joguei na semana passada. É a quadragésima oitava vez consecutiva que isto acontece, Senhor. Começo a achar que fazeis de propósito"), de um dia na vida de Maria Madalena ("Na pensão é dez moedas de prata, no carro é cinco"). Fazem falta, enfim, cenas como este diálogo apócrifo, passado na sala de espera do médico:
Senhora nazarena 1: Então dona Rute... Cá estamos, não é?
Senhora nazarena 2: Pois é.
Senhora nazarena 1: Os seus filhos, que tal?
Senhora nazarena 1: Estão benzinho. O mais novo já apedreja adúlteras na praça, o mafarrico. E o mais velho anda a estudar para fariseu. Vamos lá ver. Diz que dá dinheiro.
Senhora nazarena 2: Pois dá. E é uma carreira bonita.
Senhora nazarena 1: E o seu filho, dona Maria?
Nossa Senhora: Lá anda. A salvar o mundo.
Senhora nazarena 1: Que chatice. Não há meio de assentar.
Nossa Senhora: Pois é. E agora deu-lhe para andar sobre as águas, que é tão perigoso.
Senhora nazarena 2: Isso passa-lhe. É como a moda do skate. Até são habilidades giras, mas depois acabam por cansar.
Senhora nazarena 1: Ó dona Maria, eu no outro dia estava a dizer ao meu filho Isaías; "Ó Isaías, o filho da dona Maria, que faz milagres, é que me podia dar aqui um jeito nas costas." Eu tenho uma dor no fundo das costas que parece que me estão a puxar o nervo. Acha que ele podia dar uma vosta de olhos nisto?
Nossa Senhora: Não sei. Parece-me que ele, há dias, ressuscitou um morto. Portanto, em princípio, só faz empreitadas grandes.
Senhora nazarena 1: Mas aí é que está: isto acaba por ser uma zona ainda grande, porque é uma dor que me apanha isto tudo. Ou seja, eu não me consigo baixar.
Nossa Senhora: Eu tenho ideia de que ele trabalha mais à base da lepra. Mas posso perguntar.
Senhora nazarena 1: Faça-me isso."

Texto escrito por Ricardo Araújo Pereira, Inimigo Público, #25, 12/03/04, página 11

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